segunda-feira, 7 de abril de 2014

Vamos falar sobre autismo?

Depois de algum tempo sem postagens, estamos de volta! E nada como um assunto atual para retomar com o pé direito! 
No último dia 2 foi o dia Mundial da Conscientização do Autismo. Este dia foi criado pela ONU (Organização das Nações Unidas) em 2007 para conscientizar e chamar a atenção das pessoas sobre o autismo. 
Então, para que a gente possa compreender um pouco mais sobre o autismo, nada como conversar com quem entende do assunto para tirar nossas dúvidas. Com esse intuito, hoje vamos trazer um pouco da experiência de Larissa Gomes Lacerda. Ela é psicóloga formada pela UFMA, mestre em Análise do Comportamento pela PUC-SP e está se especializando em Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo e Desenvolvimento Atípico. Atua como terapeuta infantil em clínica particular e faz atendimentos extra consultório em autismo e desenvolvimento atípico em São Paulo/SP. Elaborei algumas perguntas para nossa querida entrevistada, cujas respostas foram dadas em formato de um breve texto. Confiram a seguir: 




Aproveitando que recentemente foi dia mundial da conscientização do autismo, mais do que na hora de aceitar esse honroso convite. Obrigada, Juliana. É um prazer contribuir com essa iniciativa falando de um assunto que eu amo.

Autismo, geralmente é definido com bases em manuais como o DSM. Ano passado foi lançado sua última versão, o DSM V, em que houve algumas mudanças comparadas ao DSM IV. De acordo com o DSM V, o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é baseado em características comportamentais de duas áreas: 1) déficits clinicamente significativos e persistentes na comunicação social e nas interações sociais, 2) padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses e atividades. Além disso, foram eliminadas as categorias que existia no DSM IV de Autismo, síndrome de Asperger, Transtorno Desintegrativo e Transtorno Global do Desenvolvimento Sem Outra Especificação, passando a ter apenas uma denominação: Transtornos do Espectro Autista. Isso tem causada polêmica colocando em questão se haverá aumento ou não do número de diagnósticos. É uma pergunta que, na minha opinião, não tem resposta. Além disso, o DSMV também ressalta que os sintomas devem estar presentes no início da infância, mas podem não se manifestar completamente no começo da vida. Acho importante ressaltar que o diagnóstico é clínico, envolve uma avaliação multiprofissional e quanto mais cedo for feito, mais cedo começará a intervenção e maior a chance de resultados positivos.
Sobre a intervenção precoce, vários estudos na área vêm sendo realizados a fim de identificar riscos autísticos bem no começo da vida, inclusive durante a gestação  até o primeiro ano de vida. São estudos que ainda estão sendo realizados, mas em outros países, como nos Estados Unidos, já se pode citar aspectos que pais, médicos, cuidadores podem ficar atentos. Quanto mais cedo a intervenção, mesmo que não se tenha necessariamente um diagnóstico fechado mais efetivo é a intervenção, trazendo mais possibilidade de suprir deficits que poderão ser desenvolvidos posteriormente. Atualmente o diagnóstico é feito em média em crianças até os 8 anos, sendo que os pais já percebem alguns sinais antes do 3. É imprescindível ficar atento a esses sinais e procurar um profissional especializado que possa fazer os devidos encaminhamentos, como um neuropediatra e um psiquiatra infantil.
O tratamento do autismo envolve uma série de profissionais como psiquiatra, psicólogo, fono, TO, nutricionista, pedagogo a depender de cada caso. Aliás, o olhar deve ser sempre individualizado, pois cada criança apresenta um repertório comportamental diferente e precisa de mais ou menos ajuda em determinadas habilidades. O que precisa ser ensinado então parte da avaliação que é feita com cada pessoa e plano de ensino varia de acordo com as necessidades específicas.

Sou psicóloga, analista do comportamento, e o trabalho que realizo é de terapia baseada na Análise do Comportamento Aplicada (ABA). Esse tipo de terapia (não é um método) envolve aplicação sistemática de princípios baseados na ciência Análise do Comportamento. O que a gente tenta fazer é proporcionar um ambiente que promova e aumente as habilidades das crianças e diminua os comportamentos que são prejudiciais ou que dificultam seu desenvolvimento. É um trabalho que precisa ser intensivo, ou seja, com alta carga horária semanal. Talvez essa seja uma barreira aqui no Brasil, a dificuldade em se conseguir realizar um trabalho com a carga horária necessária. Os benefícios pelo governo ainda são precários, os custos do tratamento são elevados, além das dificuldades em se matricular em escolas, ter uma assistência médica adequada, etc. É uma luta diária de profissionais, pais e familiares na busca da melhoria da qualidade de vida e maior independência das pessoas com autismo. As parcerias são essenciais nesse trabalho.  Costumo dizer aos pais que somos um time, que precisamos jogar juntos em prol da criança, adolescente ou adulto. Conviver com o autismo nos ensina a abrir os olhos para os avanços e reconhecê-los como grandes, por menor que pareçam ser.  Nos ensina a se apaixonar pelo diferente e ver que a diferença existe em qualquer um. Nos incentiva a ser criativos e nunca deixar de procurar meios de tornar algo o mais viável que possa ser. É não se conformar com um limite pré estabelecido e achar que nada pode ser feito.
Quanto mais eu convivo, mais eu aprendo e me encanto.